quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Fugindo

AS IDÉIAS SEMPRE ME FUGIRAM

Francis Ponge
Sem dúvida não sou muito inteligente: em todo caso  as idéias não são o meu forte. Sempre fui  iludido por elas. As opiniões mais bem fundamentadas, os  sistemas filosóficos mais harmoniosos (os mais bem constituídos)  sempre me pareceram absolutamente frágeis, me provocaram  uma certa repugnância, vazio na alma, uma penosa sensação  de inconsistencia. Não me sinto de modo algum seguro das  proposições que lanço durante uma discussão.  As que me são opostas parecem-me quase sempre igualmente  válidas; digamos, para sermos exatos: nem mais nem menos  válidas. Posso ser convencido, desarmado com facilidade.

 E quando digo que posso ser convencido: trata-se, senão  de alguma verdade, pelo menos da fragilidade de minha própria  opinião. Além do mais, o valor das idéias  parece-me na maioria dos casos em razão inversa ao ardor  empregado para expô-las. O tom da convicção  (e mesma da sinceridade) é adotado, assim me parece, tanto  para convencer-se a si mesmo quanto para convencer o interlocutor,  e mais ainda talvez para “substituir” a convicção.  De qualquer modo, para substituir a verdade ausente das proposições  emitidas. Eis o que sinto de modo bem forte.
Assim, as idéias como tal parecem-me aquilo de que sou  menos capaz, e não me interessam mesmo. Vocês me  dirão sem dúvida que aqui há uma idéia  (uma opinião)… mas: as idéias, as opiniões  me parecem dirigidas em cada um de nós por algo que não  o livre-arbítrio ou o juízo. Nada me parece mas  subjetivo, mais epifenomenal.
Não compreendo muito que as pessoas se jactem delas. Eu  acharia insuportável que se pretendesse impô-las.  Querer apresentar sua opinião como válida objetivamente,  ou em termos absolutos, parece-me tão absurdo quanto afirmar  por exemplo que os cabelos louros cacheados são mais “verdadeiros”  que os cabelos pretos lisos, o canto do rouxinol mais perto da  verdade que o relincho do cavalo. (Em compensação  sou bastante propenso à formulação e talvez  tenha algum dom para ela. “Eis o que você quer dizer…”  e em geral obtenho daquele que falava a concordância com  a fórmula que lhe proponho. Este é um dom de escritor?  Talvez.)
Caso um pouco diferente é o do que chamarei de constatacões;  digamos, se preferirem, as idéias experimentais. Sempre  me pareceu desejável que houvesse um entendimento, senão  quanto às opiniões, pelo menos quanto a fatos bem  determinados, e se isso ainda parece muito pretensioso, pelo menos  quanto a algumas definições sólidas.
Talvez fosse natural que com tais disposições (desgosto  pelas idéias, gosto pelas definições) eu  me dedicasse ao recenseamento e à definição  em primeiro lugar dos objetos do mundo exterior e entre eles daqueles  que constituem o universo familiar dos homens de nossa sociedade,  em nossa época. E por quê, me objetarão, recomeçar  o que foi feito em várias oportunidades e bem estabelecido  nos dicionários e enciclopédias? Mas, responderei,  por que e como é que existem vários dicionários  e enciclopédias na mesma língua na mesma época  e que suas definições dos mesmos objetos não  são Idênticas? Sobretudo, como é que no caso  parece estar mais em questão a definição  das palavras que a definição de coisas? Por que  posso ter essa impressão, para dizer a verdade bastante  extravagante? Por que essa diferença, essa margem inconcebível  entre a definição de uma palavra e a descrição  da coisa que essa palavra designa?
Por que as definições dos dicionários nos  parecem tão lamentavelmente desprovidas de concreto e as  descrições (dos romances ou poemas, por exemplo)  tão incompletas (ou muito particulares e detalhadas, ao  contrário), tão arbitrárias, tão temerárias?  Não poderíamos imaginar uma espécie de escritos  (novos) que, situando-se mais ou menos entre os dois gêneros  (definição e descrição), tomariam  emprestados do primeiro sua infalibilidade, sua indubitabilidade,  sua brevidade também, do segundo seu respeito pelo aspecto  sensorial das coisas…

Nenhum comentário:

Postar um comentário