sábado, 16 de dezembro de 2017

Filhos da Rua...

A falta de estrutura familiar, e o pouco tempo dispensado em casa à família fazem com que mais cedo meninos e meninas entrem em contato com realidades como a bandidagem visando o lucro rápido, a prostituição e o uso de drogas como paliativo para sensações angustiantes que é não ter um futuro promissor, não ter uma família estruturada (não necessariamente ter uma família padrão, e sim um suporte emocional).
Ao abrir a porta, o indivíduo encontra a rua. A rua é de todos, e a rua não é de ninguém, por fim.
As pessoas passam tentando não ver porque estão correndo com as suas vidas e procuram não repararem nestes dramas sociais que é a exclusão do indivíduo levando-o as ruas, pois estes fatos já se tornarem normais em seus cotidianos.
Quem governa as ruas? O guarda? Os seguranças? Em Londres temos as câmeras, um perfeito “big brother” da segurança estatal.
Que ruas são estas? Ruas urbanas? Ruas de favelas? Ruas de terra? De pedra? Asfaltadas? Valões? A rua como grande empregador, que fornece o “ganha pão” a partir de ações moralmente não aceitas na sociedade que às vezes são estimuladas até pelo seu grupo familiar como pedir esmola, furtos, vender balas e fazer malabarismos em um sinal de transito, roubos, assaltos, brigas, assassinatos, venda de drogas. Onde está o Estado? Bom, ele está muito ocupado cuidando de seu próprio nariz, tente outra vez mais tarde. Ele no momento está cuidando de passagens aéreas para familiares de políticos, cuidando da compra de seus novos carros esportivos, mansões, está cuidando de seus paraísos fiscais, mas com certeza, não está cuidando da favela perto de sua casa, não está investindo para melhorar o ensino do colégio público que tem em frente ao nosso colégio, tenham certeza.
Poucas são as iniciativas privadas, que, salvo honrosas exceções como, por exemplo, o Instituto Airton Senna participa de ações altruístas, solidárias e humanitárias em prol de uma sociedade esquecida pelos administradores deste Estado.
Outro dia, eu estava indo para casa já de noite e um menino de rua, com nenhuma má intenção veio me pedir um chinelo, pois ele tinha caminhado o dia inteiro e seus pés estavam cortados, eu pude ver em seus olhos sua expressão de necessidade, de dor. Ele não me pediu esmola, só me pediu que lhe desse um casaco ou um chinelo, e de fato, eu poderia dar. Porém, alguma coisa deu em mim que eu o evitei, e disse uma desculpa dizendo que não poderia e que não tinha sobrando, mas eu tinha. Arrependo-me amargamente deste dia, chegando em casa o pobre menino não saia da minha mente, pus o chinelo nos meus pés e sai de novo alegando para minha mãe que iria para o mercado comprar algo e fiquei procurando o menino que tinha me pedido ajuda, infelizmente, não o encontrei. Este caso me atormenta até hoje, eu chorei por causa disto e fiquei sensibilizado, e até escrevi sobre isto.
Se nós refletirmos sobre isso, chegaremos a conclusão que de tanto dizermos que não temos, que não podemos e evitarmos os meninos de rua por mero preconceito imposto pela sociedade, quando chegar a hora em que alguém que realmente precise, que não venha te pedindo dinheiro e sim ajuda, você irá evitá-lo como uma reação espontânea, é um paradigma imposto pela sociedade, é um modelo, um modelo que diz que é perigoso, que é imoral e que devemos evitar estas coisas. É um modelo que impõe uma idéia preconceituosa sobre meninos e moradores de rua, uma generalização que diz que todos os meninos de rua são assaltantes, cheiradores de cola, bandidos. Às vezes é o próprio drama que você poderia estar vivendo, mas o seu condomínio de luxo, a carteira do seu pai, o seu estilo de vida impedem que você vá pra rua, porque a rua é a selva de pedras, é o último passo da decadência, é o fim da linha para muitas pessoas.

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